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Estava em um show de stand-up em uma reconhecida casa de comédia em Curitiba (PR), foram tantas piadas que eu chorava, não de rir, de tristeza mesmo.

O humor é uma necessidade para a nossa sobrevivência, para Freud inclusive, pai da psicanálise, ela é “o mais elevado grau de sofisticação do ser humano”. É a percepção de que a vida é ridícula e de que se não tivermos a capacidade de rir disso, nós desfalecemos, pois a política é ridícula, a vida social é ridícula, aquele hábito que tenho todos os dias ao acordar é ridículo e como diria Fernando Pessoa, todas as cartas de amor são ridículas, percebo isto claramente ao olhar para mensagens que enviei no passado para ”crushes”, por mais pensadas que elas fossem, elas eram absolutamente ridículas, tão ridículas quanto quem nunca enviou tais tipos de mensagens.

A comédia é uma forma de visualizar as tragédias da vida humana através de outra perspectiva, uma maneira de se distanciar de dramas que parecem profundamente pessoais e assim brincarmos e questionarmos lógicas estabelecidas na sociedade. Quando analisamos cenas cômicas, e se mudarmos alguns elementos, percebemos que elas facilmente poderiam ter o seu gênero mudado para a tragédia. Quando Charles Chaplin em Tempos Modernos se envolve em situações hilárias na linha de montagem de uma fábrica, um olhar mais atento também tem a capacidade de enxergar características impostas pela revolução industrial, como as más condições laborais e a alienação do ser humano pelo trabalho.

Entretanto, de tempos em tempos é comum surgir polêmicas envolvendo comediantes pelo tipo de humor que estes elegem promover. Geralmente eles se defendem apontando para uma onda do politicamente correto que ameaça à liberdade de expressão e comumente usam a frase “É só uma piada”, assim como fez Rafinha Bastos no documentário “O Riso dos Outros”, ao comentar uma piada com a Wanessa Camargo em que disse que “comeria” ela e o bebê que a cantora estava esperando na época, além de um processo, Rafinha gerou revolta de feministas que lutam contra a cultura do estupro.

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No humor vale tudo, só não vale qualquer coisa

Dizer “É só uma piada” muitas vezes é uma desculpa para disfarçar preconceitos que estão arraigados na sociedade e imaginário coletivo. A esquete “O Mundo Tá Chato” do Porta dos Fundos ironiza como relativizamos atitudes preconceituosas contra mulheres, homossexuais, negros, entre outros, dando o nome a isto de piada. No vídeo o personagem interpretado pelo ator Gregório Duvivier chega ao trabalho irritado e reclama que o mundo está chato, ele cita que acaba de fazer um “elogio” a menina da recepção e é tachado de machista, os colegas comentam que na verdade ele havia sido sim bastante ofensivo e aí ele parte para outras “brincadeiras” que vão deixando os seus colegas mais abismados.

Nos últimos dias, o Porta dos Fundos também esteve envolvido em uma polêmica por causa do vídeo “Teste de Covid” (retirado do ar), nele o ator Fabio de Luca interpreta um paciente em busca do resultado de um teste para a doença, mas a personagem de Thati Lopes, que interpreta uma atendente de laboratório, avisa que o resultado foi negativo já que o vírus não teria conseguido “resistir ao seu corpo podre” e que ”morreu abafado dentro da veia dele”.
Logo, o conteúdo foi considerado extremamente gordofóbico e prejudicial por estimular a estigmatização, uma das principais críticas foi a criadora de conteúdo Bianca Barroca.

O Porta dos Fundos através de um de seus idealizadores, Fábio Porchat, não usou a justificativa “É só uma piada” ou disse que tudo isto não passa de “mimimi”, na verdade foi aberto um canal para diálogo com a Bianca sobre gordofobia através de uma live. Nela foi ressaltado e reconhecido que muitas vezes não importa que a intenção do conteúdo não era o de ser preconceituoso, o que realmente importa é o que foi ao ar.

Este último caso me lembrou quando estive em um show de comédia em 2019, o humorista estava acima do peso e começou a fazer piadas com pessoas gordas. Eu não tenho obesidade, mas uma das amigas que estava comigo era alguém com sobrepeso e com problemas de saúde ligados a isto. As piadas foram acontecendo e aumentando em sua toada ofensiva, o público ao redor ria cada vez mais energicamente, mas eu não ria e muito menos a minha amiga, em determinado momento lágrimas escorreram pelos meus olhos e só finalizaram ao final da apresentação, as piadas não me faziam rir, tampouco me machucavam, mas feriam a quem amo.

O humor não tem limite, mas tem responsabilidade

O humor sempre terá um alvo, mas é possível escolher basicamente entre dois caminhos. Uma opção mais fácil está alicerçada nos clichês, no de fazer piada com grupos que já são constantemente alvos de preconceitos e que estão envoltos por uma estrutura social opressora, as risadas certamente virão, pois os preconceitos estão aí instalados em toda a sociedade. Outro caminho, bem mais trabalhoso e até perigoso, é colocar como alvo da comicidade o opressor e as estruturas que sustentam desigualdades e preconceitos, nesta arte a risada estará lá, mas ela vem bem acompanhada de reflexão e induz o indivíduo a ação, a mudança.

O humorista quando está com o microfone na mão, adquire o poder da fala e, como foi colocado por Stan Lee nos quadrinhos do Homem-Aranha, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Acredito que o humor deve ser profundamente transgressor e revolucionário, ele não deve assinar embaixo de preconceitos, mas questionar a estrutura estabelecida. Isto sim é digno de riso.

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